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SERMÃO ESCRITO: A VERDADEIRA ADORAÇÃO COMO MISSÃO Marcelo Gomes
TEXTO
Atos 10,23-48
INTRODUÇÃO
Uma expressão muito utilizada atualmente é “Adoração Profética”. Embora composta por dois termos fundamentalmente bíblicos, esta expressão tem sido associada a uma proposta religiosa mais aos moldes da espiritualidade pós-moderna que aos parâmetros da espiritualidade cristã.
O culto pós-moderno tem algumas marcas: em primeiro lugar, centraliza o indivíduo em suas necessidades e expectativas. Promete-lhe curas, soluções financeiras, ausência de tribulações, aumento das facilidades e do prazer. Adequa-se ao “gosto” e às exigências dos fiéis, que transformam-se em uma espécie de “clientela” dos “produtos” religiosos.
Em segundo lugar, o culto pós-moderno caracteriza-se por uma nova forma de positivismo. A fé deixa de ser conteúdo e compromisso para tornar-se declaração e manipulação de promessas. A vida cristã perde seu caráter de relacionamento e adquire contornos burocráticos – a oração certa, na quantidade certa, com os “badulaques” apropriados.
Em terceiro lugar, o culto na pós-modernidade é marcado por um certo sentimentalismo religioso, de uma espiritualidade afetivo-romântica. Deus é apresentado e “cultuado” (será?) como se fosse um pai sentimental, ou um irmão mais velho, ou quase como um namorado. Elogiado, sim, mas não por seus atributos de soberania e santidade, mas por sua beleza, carinho, complacência, amabilidade... Atributos, de certa forma, presentes em Deus, é verdade, mas desconexos e mal-interpretados. Fala-se em colo, beijos, sorrisos, corridas e “giros no ar”. Quase não se fala em perdão, submissão, serviço, amor ao próximo e comunhão. Tudo um tanto quanto “estranho”.
A “adoração profética”, tal como concebida atualmente, assume aspectos egocêntricos e infrutíferos, diferentemente do que acontece na adoração e na profecia bíblicas. Estas, por sua vez, caracterizam-se por uma centralização da mensagem e da Palavra de Deus, denunciando o pecado e anunciando graça e misericórdia. Condicionam as bênçãos prometidas à obediência e ao compromisso cristão, proclamando verdadeira alegria mesmo em meio às dificuldades.
A verdadeira adoração profética promove no adorador um terrível reconhecimento de sua indignidade, ajudando-o a diferenciar os níveis de intimidade. Deus é contemplado como Pai amoroso e também como Senhor absoluto, Justo Juiz, diante do qual todos compareceremos. Enfim, a adoração profética estabelece um modelo de culto em que o encontro (confronto) com Deus resulta em missão apaixonada e frutífera. Adoração profética é adoração em missão.
A experiência de Pedro ante o desafio de estar com Cornélio pode ser compreendida como um exemplo de Adoração em Missão. Por duas razões: o Pedro adorador é enquanto adorador vocacionado para uma missão (vai com eles); conseqüentemente, o Pedro adorador aceita o chamado celestial e transforma-se em missionário (foi com eles). O exemplo de Pedro – adorador e missionário – oferece-nos, portanto, marcas da missão de um verdadeiro adorador.
1. A Marca da Humildade
É significativa a reação de Pedro ante a reverência de Cornélio: “sou homem como você” (vv. 23b a 26). Pedro, conquanto um dos mais influentes apóstolos, rejeita a fama e a adoração que deve ser oferecida exclusivamente a Deus. A adoração em missão é consciência de indignidade e incapacidade pessoais. A missão do adorador não o faz importante; faz com que se saiba impotente sem Deus.
A humildade de Pedro evidencia-se ainda na menção que faz da visão como fator de mudança em seu caráter: “Deus me mostrou” (vv. 27 a 29). Tinha absoluta consciência de sua teimosia e incompreensão, assumindo que foi vencido por Deus na experiência da adoração. Resistiu à tentação de supervalorizar-se. A adoração é consciência da própria ignorância e da necessidade contínua de crescimento. A missão do adorador não é o topo do progresso espiritual; mas apenas mais um degrau em sua caminhada humilde e decidida. A verdadeira adoração sempre transforma-se em missão humilde e dependente da graça de Deus.
2. A Marca da Fidelidade
Diante da explicação de Cornélio o missionário Pedro não tem outra alternativa senão pregar-lhe a “mensagem das boas novas” (vv. 30 a 38). Não anuncia a si mesmo, seu apostolado, seu ponto de vista, sua cultura. Resiste à tentação de substituir o conteúdo da mensagem cristã. A adoração em missão é uma proclamação fiel da centralidade de Jesus Cristo no Reino de Deus. A missão do adorador, portanto, deve ser cristocêntrica, sob pena de tornar-se pagã.
A cruz e a ressurreição emergem na teologia de Pedro como desafio à missão: “testemunhas que designara” (vv. 39 a 43a). Pedro resiste à tentação de transferir a responsabilidade mensagem, assumindo-a com coragem e convicção. A adoração em missão é compromisso com a denúncia (cruz) e o anúncio (ressurreição) do evangelho. A missão do adorador só torna-se profética quando identifica-se com o ministério dos profetas.
Pedro manteve-se fiel a Cristo convidando Cornélio e os seus à fé e ao recebimento do perdão para os pecados: “todo o que crê recebe...” (vv. 43b). Não estava comprometido com os resultados de sua visita missionária mas com a mensagem. Resistiu, portanto, à tentação de “diluir” seu teor. A adoração em missão conclama ao arrependimento. A missão do adorador não chama ao riso sem antes chamar às lágrimas. A verdadeira adoração sempre e de novo transforma-se em missão fiel e apaixonada pela Palavra de Deus.
3. A Marca da Frutificação
O batismo de Cornélio não é mais que um resultado da constatação de Pedro: “Eles receberam o Espírito...” (vv. 44-48). Os frutos daquela viagem missionária foram produzidos pelo Espírito e não pela capacidade persuasiva do missionário. A adoração em missão opta preferencialmente pela qualidade de uma vida de testemunho que gera quantidade pela atuação do Espírito. A missão do adorador não tem compromisso com resultados, mas tem resultados do compromisso. A verdadeira adoração torna-se frutífera na medida em que se torna dependente do Espírito Santo.
CONCLUSÃO
O desafio oferecido pela experiência de Pedro na casa de Cornélio é o desafio de uma experiência de adoração que conduza à missão. É preciso romper com o sentimentalismo de uma adoração infrutífera e egocêntrica. É preciso repensar o culto a Deus, de forma que transforme-se em um verdadeiro culto racional, inconformado com este século e marcado por uma adoração que desperte vocações.
Em Jesus descobrimos um belíssimo exemplo de adoração em missão. Aconteceu no Cenáculo. Ali o filho de Deus reuniu-se com seus discípulos e anunciou-lhes sua tragédia iminente. Chocou-os, emocionou-os, entristeceu-os. Mas antes de sair cantou com eles um hino, adorando a Deus e partindo ao encontro de sua missão. Duríssima missão.
Assim como ensinou-nos Jesus devemos também viver. Não será fácil. Precisaremos romper com o comodismo de uma espiritualidade emocionante mas de poucas implicações práticas. Para tanto, contamos com o auxílio do Espírito Santo, o qual se nos apresenta como certeza. Certeza de vitórias, de bênçãos e, sobretudo, de uma vida que glorifique a Deus.
Que o Espírito Santo nos conceda humildade, fidelidade e frutos, num exercício de adoração que anuncie Jesus Cristo ao mundo. |
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