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              PASTORAIS    

UMA PEDRA NO CAMINHO DA COPEIRA. E NO NOSSO.

Marcelo Gomes

 

No meio do caminho tinha uma pedra...

Era início de madrugada. Domingo para segunda. Hora para trabalhador estar em casa, dormindo, guardando forças para o início da semana. Mas a vida não é simples. Nem justa. Ocorre que, para muita gente, essa hora, por mais imprópria, nesse dia, por mais impróprio, é ocasião para tentar voltar da lida, chegar em casa, tentar descansar. Principalmente nos grandes centros urbanos.

Era o que fazia uma copeira. Servira no Buffett o dia inteiro, depois do que entrou no ônibus que a levaria ao seu destino. Imagino que pensava na vida, enquanto passava por entre ruas escuras e desertas ou iluminadas e movimentadas. Talvez sonhasse com dias melhores, nos quais não precisaria trabalhar aos domingos nem pegar lotação. Talvez desejasse nada mais que uma cama macia e limpa. Sabe Deus o que passa no coração das pessoas enquanto olham da janela. Nunca saberemos.

Tinha uma pedra no meio do caminho...

Em algum lugar, naquele dia, alguém pensava na vida de um jeito diferente. Se é que pensava. Tem gente que segue apenas instintos. Não sei que diferença há entre animais e pessoas que seguem instintos. Instintos são indicações, sugestões do organismo para um cérebro que, dentre outras atribuições, tem o dever de decidir. Mas é o cérebro que decide, baseando-se em valores, princípios e convicções. Não em instintos.

Imagino que esse alguém andava na companhia de outrem, falando sobre nada ou sobre tema de pouco proveito. Minha avó dizia que mente vazia é oficina do diabo. É mesmo. As idéias surgem. Criativas! E se assaltassem alguém? Um ônibus, quem sabe? De repente, o dia ganhou contornos de dia útil, oportuno. Nada mal um dinheiro extra para a semana, certo? Que tal à noite? Melhor!

Tinha uma pedra...

Era por volta de uma da madrugada quando o ônibus descia pela Avenida Brasil, em Bangu, zona oeste do Rio. O motorista achou ter visto dois homens no viaduto sob o qual passaria. Continuou.

Estrondo.

Gritos.

Desespero.

Uma pedra de 21 Kg ultrapassara a cobertura do ônibus e atingira, em cheio, a copeira, que morreu na hora. Desfecho inesperado para um dia como aquele. Inacreditável. Como pode alguém morrer desse jeito? Que vida é essa, tão frágil, tão efêmera, tão fugaz? Diz a Bíblia que é como a erva, que logo seca e deixa o seu lugar. Pois não é?

No meio do caminho tinha uma pedra...

Drummond disse que nunca esqueceria esse acontecimento na vida de suas retinas tão fatigadas: “nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra; tinha uma pedra no meio do caminho”. Acho que também nunca esqueceremos.

Só consigo pensar se essa mulher conheceu a Jesus? Teria esperança? E os que fizeram de uma pedra no caminho sua sentença de morte? Conhecerão a Jesus? Terão salvação? E nós, que o conhecemos? Teremos coragem? Amor? Desapego? Aprenderemos, finalmente, que a vida é coisa que acaba, quando menos se espera? Faremos nossa parte? Cumpriremos nossa missão?

Foi diante da força da morte que Jesus falou mais profundamente sobre a vida. Frente ao túmulo de Lázaro, chorou e declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida”. E para os que choravam com ele, uma única ordem:

- Tirem a pedra...

             
                               
                               
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