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              PASTORAIS    

OUTRAS ÁGUAS

Marcelo Gomes

 

O Brasil, nas últimas semanas, deu mostras extraordinárias de sua solidariedade e disposição para socorrer aqueles que são surpreendidos pela tragédia. No caso, os beneficiados foram os catarinenses do vale do Itajaí e região, atingidos em cheio pelas chuvas, enchentes e desmoronamentos. Nunca vimos quadro semelhante em nosso país. Milhares de pessoas ficaram sem suas casas. Centenas morreram. A maioria perdeu praticamente tudo.

 

Foi difícil encontrar quem não se sensibilizasse com o drama das vítimas. Eu mesmo não encontrei ninguém de coração tão duro. Pelo contrário. Vi, aos montes, quem chorasse diante das imagens de caos e desespero, amplamente divulgadas por todos os meios de comunicação. Milhões de brasileiros, em todos os estados, movimentaram-se para mandar algum donativo. Por um pouco, até esquecemos das mazelas e misérias morais que assolam nosso povo.

 

No meio de toda essa campanha em favor dos desabrigados, peguei-me refletindo sobre um dos itens mais solicitados em todas as conclamações: a água. No desafio que fiz à igreja que pastoreio, insisti que trouxesse água. Fui largamente atendido. Milhares de litros de água foram trazidos e encaminhados. As salas onde guardamos o que chegava parecia estoque de mercado, de tanta água: galões, garrafas e copos. Foi bonito de ver.

 

Mas logo lembrei-me da conversa entre Jesus e a samaritana, junto ao poço: “Se você beber desta água, voltará a ter sede; se beber da água que eu lhe der, jamais terá sede novamente” (cfe. João 4:13-14). Pensei na água que destruiu os lares de tanta gente, naquela que mandávamos em caminhões carregados de mantimentos e naquela que somente Cristo pode dar. A primeira, das chuvas, significou destruição e dor. A segunda, potável e envasada, significou alívio; necessário, porém temporário. A terceira significa vida eterna e consolo na crise, o qual nenhum gesto de solidariedade pode realmente oferecer. Os catarinenses tiveram as duas primeiras em abundância. Terão a terceira? Receberão, caso não a tenham?

 

Descobri que podemos ser rápidos para compartilhar bens de consumo e lentos para compartilhar as boas novas da salvação. Que talvez seja mais fácil encher caminhões de mantimentos que recrutar pessoas para evangelismo e missões. Não que seja ruim ou de pouca importância atender o carente, mas, se beber somente dessa água, voltará a ter sede. De outro lado, caso ouça a mensagem da fé e lhe dê crédito, beberá de uma água que jamais permitirá tenha sede outra vez. Acredito que devemos fazer aquelas coisas sem nos esquecermos destas.

 

Passado o pior (pelo menos, ao que parece, assim, de longe...), contabilizados os prejuízos (aqueles, somente aqueles que podem ser mensurados) e assumido o caminho da reconstrução, já estamos comemorando o natal. Muitos esquecerão da tragédia, pensando exclusivamente nas festas do fim de ano. A igreja, tendo retomado sua rotina comum, não mandará mais galões de água para as regiões atingidas. Mandará, contudo, a água da vida? Fará do natal uma oportunidade de apregoar seu verdadeiro significado?

 

No natal da solidariedade, os presentes e a generosidade são os pontos altos da festa. No natal de Jesus, presentes e generosidade só fazem sentido à luz da boa notícia da salvação: Cristo nasceu! A luz veio ao mundo! A fonte de água viva está disponível a todo sedento deste mundo! Jamais teremos sede outra vez! Eis o presente que vale; eis a solidariedade cujos efeitos nunca terão fim.

             
                               
                               
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