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OUTRA CABANA Marcelo Gomes
Li “A Cabana”, de William P. Young (Editora Sextante). É um best seller. Milhões de exemplares já foram vendidos em todo o mundo. Trata-se de um romance com enfoque que pretende ser cristão, embora não tenha qualquer intenção dogmática ou institucional. Nalguns trechos, pode-se perceber o desejo do autor em questionar princípios conservadores ou, mesmo, confrontá-los. Seu objetivo principal, no entanto, parece o de ser um consolo para os que vivem em situação de sofrimento.
O texto é uma ficção que conta o drama de uma família americana tradicional que é surpreendida pela tragédia: o casal perde a filha mais nova, uma doce e pura criança, assassinada durante um programa de férias por um serial killer. Sem fé, o pai é restaurado ao caminho da espiritualidade em razão de uma experiência sobrenatural protagonizada pela Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo encontram-no na cabana em que foi achado o corpo de sua menininha.
Aqui surge o primeiro problema do livro, que é de ordem prática. Seus efeitos são muito mais interessantes aos leitores que não passaram por uma situação de extremo sofrimento. Caso contrário, perguntar-se-ão sobre as possibilidades de um caminho semelhante para a cura de sua dor. Acaso também terão direito a um encontro privativo com Deus, onde suas perguntas possam ser respondidas?
De qualquer modo, o teor dos diálogos com a Trindade não apresenta novidade em relação ao que qualquer orientador cristão seria capaz de oferecer aos que tenta ajudar. Sobretudo em circunstâncias tão adversas. O que chama à atenção é o modo como a Trindade é retratada: O Pai – ou Papai, como é chamado no livro – é uma senhora negra, firme e excelente cozinheira, nos moldes de uma boa “mamãe” negra norte-americana. O Filho, Jesus, é um judeu carpinteiro muito simpático e atencioso, de hábitos bastante ocidentais. O Espírito, outra figura feminina, cujo nome é Sarayu, é uma pequena asiática de movimentos leves e comportamento quase esotérico. Figuras interessantes.
Mas é aqui que se revela o principal problema do livro, que agora é de ordem teológica. Nada contra as imagens escolhidas pelo autor, embora não apresentem grande riqueza criativa. Também não há por que descaracterizar os esforços por fazer compreensíveis as razões para a existência do sofrimento, elaboradas nos muitos diálogos que o texto propõe. A questão é outra: por que, no intento de descrever em termos humanos o Deus Trino do Novo Testamento, o autor recorre a três personagens distintas? Ou ainda: considerando que Deus queira manifestar-se fisicamente a um ser humano qualquer, escolheria ele três modos diferentes de encarnação?
Fica claro, na proposta de Young, que a figura humana de Jesus de Nazaré, o judeu marcado nas mãos e pés com as cicatrizes de sua paixão, é uma representação visível da personalidade do Filho, e exclusivamente Dele. O Pai e o Espírito precisam de outras. Poderiam, como o próprio autor sugere no livro, escolher qualquer uma, mas não, ao que parece, aquela que pertence ao Filho. Jesus é unicamente uma das pessoas da divindade – embora muito, nada mais.
E por que a tempestade? Por uma única razão: a questão da suficiência. Não desejo entrar em questões doutrinárias trinitarianas, mas fazer uma denúncia: como acontece na base de toda crise teológica que a Igreja contemporânea está enfrentando, Jesus não é apresentado como suficiente, em termos de plenitude e totalidade. Sua importância é parcial; Ele compõe um todo, maior, superior. Sua encarnação e entrega não são definitivos, mas partes integrantes de um contexto que lhe transcende, no qual novas personagens, obrigações e, inclusive, sacrifícios devem surgir. Nele não reside, como diria o apóstolo Paulo, toda a plenitude de Deus. Ele é um dos três.
O fato incontestável, porém, que o Novo Testamento pretende transmitir é o seguinte: quando Deus – Uno e Trino – decidiu revelar-se a uma humanidade caída e distanciada, escolheu encarnar-se na figura histórica e única de Jesus Cristo, o Filho, no qual todos podem ver sua glória, glória como do unigênito do Pai. Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus unigênito, que está no seio do Pai, no-lo revelou. Esse mesmo Jesus, quando abordado por um Filipe que pediu-lhe para mostrar o Pai, respondeu: “quem me vê a mim, vê o Pai”.
Não nego, é óbvio, que o Filho seja uma das pessoas da Trindade. Nego que, para tornar-se revelada, a Trindade precise lançar mão de três figuras humanas distintas. Em Jesus revelaram-se Pai, Filho e Espírito Santo. Ele é suficiente. Não por sua masculinidade, etnia ou cultura especial. Tampouco por sua simpatia ou qualquer outro traço de sua personalidade. É por causa de sua entrega voluntária e imerecida na cruz, em favor dos pecados do mundo inteiro. Jesus não é a imagem do Filho; Jesus, o Filho, é a Imagem de Deus! Como também diria Paulo: Ele é a imagem do Deus invisível; a exata expressão de Deus, o Pai.
Admito, claro, que não foi intenção do autor contrariar o princípio da suficiência. Acreditaria se soubesse que isso não lhe passou pela cabeça. Mas há uma cultura no pano-de-fundo dessa história toda, que precisa ser desmascarada e denunciada como contrária às iniciativas salvíficas de nosso Senhor. Ele não precisa lançar mão de outros meios de revelar-se. Não mais. Soberanamente, revelou-se de uma vez por todas. Seus propósitos são maiores que nossos anseios e pretensões. Seu modo de agir não acompanha nossas pressuposições, sejam elas conservadoras ou progressistas. Sua cabana é outra.
Na minha, pelo que aprendi nas Escrituras, regra única e infalível de fé e prática, o Deus uno e trino falaria por meio de um só: Jesus. Pois há um só Deus e um só que faz a mediação entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem. E não sei ao certo se falaria. Acredito que me abraçaria e simplesmente olharia nos olhos, ao que todas as perguntas estariam respondidas e todo sofrimento, superado. Ele é a Palavra, toda ela. Creio que enxugaria – como enxugará! – dos meus olhos toda a lágrima. Estenderia a mão, para conduzir-me à cabana que vale. E independentemente do que me acontecer, sei que o fará. Sim, sei que o fará. |
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